“ – Você hoje acordou com nostalgia de Salvador.
– Preto tem é
banzo, amor. Nem ‘saudade’ traduz essa sensação.”
Banzo, minha avó me ensinou, é quando o preto que está longe
sente tanta saudade que é capaz de transportar-se para onde estão os seus.
É sábado. O Garcia está movimentado: rua cheia de gente
subindo e descendo, ônibus em alta velocidade, mulheres limpando casa, cheiro
de feijoada e frango assado, homem lavando o carro na porta de casa, o moço do
carrinho de frutas, a propaganda de Boquinha do Gás, Mãe Preta com o seu
sorriso sempre aberto. Música alta, em cada casa, em cada carro parado, a cada
quinze passos. Crianças correndo no quintal, minha avó gritando da porta “vocês
vão quebrar a cabeça”. Tem muita gente. É muita zoada. São muitos cheiros. Minha
Salvador é over, é disso que eu sinto falta.
Eu inundo o silêncio do Jardim da Penha com Edson Gomes. Está
tocando o seu DVD pelo youtube. Eu nunca fui a um dos seus shows mas
conheço as suas músicas porque sempre as ouvi pelo rádio e depois pela internet. Eu
era criança e morava com minha avó na Vasco da Gama. Eu me lembro de sentar no
muro e ficar ouvindo Dindo, que era meu vizinho e tocava na banda, cantar as
músicas de Edson Gomes. Em especial eu me lembro de Malandrinha – lançada no
disco Reggae resistência, de 1988 (eu tinha 4 anos). A voz desse preto baiano me
leva para o lugar dos afetos. Tem uma mistura de dor e frescor em suas letras,
uma beleza própria de quem reescreveu com orgulho de sua história. Eu cantarolo
as músicas do DVD, eu gosto de todas e me emociono com muitas. “E eu sou uma
árvore bonita/ Que precisa ter os seus cuidados/ Vem me regar, mãe/ Vem me
regar (...) E as minhas raízes/ Eu balanço, eu balanço, eu balanço” (Árvore). Nós pretos carregamos
nossas raízes na cabeça, é o nosso cabelo. E Edson Gomes balança seus dreads
com altivez.
Até nas letras que tratam de questões mais pesadas como o
racismo o autor consegue mostrar otimismo e fé. “Ainda ontem no condomínio que
moro/ Uma senhora quando me avistou/ Apertou a bolsa, ela
escondeu sua bolsa/ Apertou a bolsa, a branca segurou logo a bolsa/
São cenas da minha cidade uma doença da sociedade/ Cenas da minha cidade
uma doença talvez incurável/ E você ai como passa?/ Você aí o que acha disso?
(...) Acredito em tudo aquilo que faço/ E persisto em tudo aquilo que
faço” (Barrados). São muitas as canções em que Edson Gomes trata dos problemas
sociais enfrentados pelos negros brasileiros, sobretudo em Salvador, donde
conhece a realidade. Arriscaria dizer que na maioria delas esse teor político se
mostra presente.
Há uma marca nas canções que é o chamamento amoroso para
despertar as consciências, há sempre o outro para estar comigo, para seguir
junto. “Vamos amigo lute/ Vamos amigo ajude, se não/ A gente
acaba perdendo o que já conquistou (...) A luta não acabou/ E nem
acabará/ Só quando a liberdade raiar” (Lili). O chamamento amoroso é passado de gerações, são valores que aprende
em casa, marca da ancestralidade nas letras. “Isaac, vamos cantar esse reggae/ O povo
precisa de uma voz amiga/ Que fale, que lute por uma verdade/ O
povo precisa da realidade/ Mas tenha cuidado com as sutilezas/ Vovó
já dizia: Beleza não faz a mesa/ É existem mil jeitos de viver,
eu sei/ É existem mil formas de fazer, eu sei/ Mas precisa
assumir o compromisso/ E se for preciso morra por isso.” (Isaac). Isaac é um código de ética válido para todos os nossos filhos.
E, por fim, mas não menos importantes, as músicas de amor de
Edson Gomes são maravilhosas declarações de amor – Malandrinha, Samarina,
Perdido de amor. É um amor exagerado e carente. É over, como a minha Salvador. “Por
mais forte que seja o homem, que seja o homem/ Sempre chega o momento, sempre
chega o/ De cair de ante de, um sentimento (...) Todo o dia o negro
fala... fala só de amor/ Chora, chora negão... Chora só de amor.” (Fala só de
amor)
Mas a feira do Jardim da Penha acaba meio dia e eu preciso viver
a realidade daqui.
Bárbara Maia Cerqueira Cazé
Bárbara Maia Cerqueira Cazé