Preto tem é banzo, 04/09/16

“ – Você hoje acordou com nostalgia de Salvador.
   – Preto tem é banzo, amor. Nem ‘saudade’ traduz essa sensação.”

Banzo, minha avó me ensinou, é quando o preto que está longe sente tanta saudade que é capaz de transportar-se para onde estão os seus.

É sábado. O Garcia está movimentado: rua cheia de gente subindo e descendo, ônibus em alta velocidade, mulheres limpando casa, cheiro de feijoada e frango assado, homem lavando o carro na porta de casa, o moço do carrinho de frutas, a propaganda de Boquinha do Gás, Mãe Preta com o seu sorriso sempre aberto. Música alta, em cada casa, em cada carro parado, a cada quinze passos. Crianças correndo no quintal, minha avó gritando da porta “vocês vão quebrar a cabeça”. Tem muita gente. É muita zoada. São muitos cheiros. Minha Salvador é over, é disso que eu sinto falta.

Eu inundo o silêncio do Jardim da Penha com Edson Gomes. Está tocando o seu DVD pelo youtube. Eu nunca fui a um dos seus shows mas conheço as suas músicas porque sempre as ouvi pelo rádio e depois pela internet. Eu era criança e morava com minha avó na Vasco da Gama. Eu me lembro de sentar no muro e ficar ouvindo Dindo, que era meu vizinho e tocava na banda, cantar as músicas de Edson Gomes. Em especial eu me lembro de Malandrinha – lançada no disco Reggae resistência, de 1988 (eu tinha 4 anos). A voz desse preto baiano me leva para o lugar dos afetos. Tem uma mistura de dor e frescor em suas letras, uma beleza própria de quem reescreveu com orgulho de sua história. Eu cantarolo as músicas do DVD, eu gosto de todas e me emociono com muitas. “E eu sou uma árvore bonita/ Que precisa ter os seus cuidados/ Vem me regar, mãe/ Vem me regar (...) E as minhas raízes/ Eu balanço, eu balanço, eu balanço” (Árvore). Nós pretos carregamos nossas raízes na cabeça, é o nosso cabelo. E Edson Gomes balança seus dreads com altivez. 

Até nas letras que tratam de questões mais pesadas como o racismo o autor consegue mostrar otimismo e fé. “Ainda ontem no condomínio que moro/ Uma senhora quando me avistou/ Apertou a bolsa, ela escondeu sua bolsa/ Apertou a bolsa, a branca segurou logo a bolsa/ São cenas da minha cidade uma doença da sociedade/ Cenas da minha cidade uma doença talvez incurável/ E você ai como passa?/ Você aí o que acha disso? (...) Acredito em tudo aquilo que faço/ E persisto em tudo aquilo que faço” (Barrados). São muitas as canções em que Edson Gomes trata dos problemas sociais enfrentados pelos negros brasileiros, sobretudo em Salvador, donde conhece a realidade. Arriscaria dizer que na maioria delas esse teor político se mostra presente.

Há uma marca nas canções que é o chamamento amoroso para despertar as consciências, há sempre o outro para estar comigo, para seguir junto. “Vamos amigo lute/ Vamos amigo ajude, se não/ A gente acaba perdendo o que já conquistou (...) A luta não acabou/ E nem acabará/ Só quando a liberdade raiar” (Lili). O chamamento amoroso é passado de gerações, são valores que aprende em casa, marca da ancestralidade nas letras. “Isaac, vamos cantar esse reggae/ O povo precisa de uma voz amiga/ Que fale, que lute por uma verdade/ O povo precisa da realidade/ Mas tenha cuidado com as sutilezas/ Vovó já dizia: Beleza não faz a mesa/ É existem mil jeitos de viver, eu sei/ É existem mil formas de fazer, eu sei/ Mas precisa assumir o compromisso/ E se for preciso morra por isso.” (Isaac). Isaac é um código de ética válido para todos os nossos filhos. 

E, por fim, mas não menos importantes, as músicas de amor de Edson Gomes são maravilhosas declarações de amor – Malandrinha, Samarina, Perdido de amor. É um amor exagerado e carente. É over, como a minha Salvador. “Por mais forte que seja o homem, que seja o homem/ Sempre chega o momento, sempre chega o/ De cair de ante de, um sentimento (...) Todo o dia o negro fala... fala só de amor/ Chora, chora negão... Chora só de amor.” (Fala só de amor) 

Mas a feira do Jardim da Penha acaba meio dia e eu preciso viver a realidade daqui.

Bárbara Maia Cerqueira Cazé

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