Há duas semanas eu conheci um
menino chamado Gabriel. Na verdade, um adolescente, desses grandes que, se
fosse branco com o uniforme de escola particular cara, seria considerado um
adolescente bobo, mas como é um adolescente negro estudante de escola pública é
considerado um adulto. Não sei sua idade exata, algo entre 17 e 19 anos. Para mim,
um menino.
Eu estava na escola a trabalho, já
tinha concluído o meu serviço e aguardava o carro no pátio. Gabriel se aproximou
do portão e me chamou. Queria uma informação. Eu expliquei que não trabalhava
na escola e chamei alguém que pudesse atendê-lo. Enquanto o funcionário da
secretaria não chegava, retornei para a cadeira e fiquei olhando Gabriel. Vê-lo
de onde eu estava me pareceu desconfortável, eu explico: era um menino negro encostado
numa grade; podia ser qualquer grade e por um momento eu nem consegui lembrar
que eu estava numa escola. Desviei esse pensamento e depois que Gabriel foi
atendido me aproximei.
Ele me contou que estava lá pedindo
orientação para conseguir o cartão de ônibus (que garante gratuidade aos
estudantes), que mora longe e sem o cartão não poderia começar a frequentar as
aulas porque ficaria muito caro para ele pagar ônibus todos os dias. As aulas começaram
há duas semanas e me pus a fazer contas mentalmente.
A passagem de ônibus Transcol custa
R$ 3,25, Gabriel precisa por dia de R$ 6,50 para ir e voltar da escola, o que
dá por semana R$ 32,50. Cada dia Gabriel tem 5 aulas, cada dia que falta fica
com 5 faltas, o que dá por semana 25 faltas. Segundo a LDB e o Regimento da Rede
Estadual, Gabriel pode faltar até 25% das aulas, algo em torno de 237 faltas. Gabriel
já tinha acumulado 50 faltas por não ter R$ 65,00 para ir e voltar da escola
para casa durante as últimas duas semanas. Cada aula que Gabriel não assiste é
um real e pouquinho que ele não tem.
Gabriel me contou que era o único da
casa que não tinha carteira assinada, pois a mãe trabalha no posto de saúde e
as duas irmãs trabalham no salão como cabeleireiras. Eu senti que ele ficou um
tanto constrangido ao dizer isso. Emendou falando que sempre trabalha em festas,
que a família toda trabalha, por exemplo no carnaval, cada um com o seu
carrinho, vendeu bebidas (refrigerante, cerveja, etc). Que em 2016 tentou
estudar na escola do bairro, mas abandonou porque estava reprovado por falta,
porque sempre faltava em épocas de festas. Conversamos bastante enquanto ele
aguardava o documento para fazer o cartão de transporte e eu o carro, ele de um
lado da grade e eu de outro.
Gabriel não sabe, e nunca saberá,
que eu queria ter na bolsa os R$ 130 que garantiriam o transporte para ele
frequentar as aulas do mês seguinte. E queria colocá-lo no carro para resolver essas
pendências burocráticas rápido para conseguir voltar a assistir as aulas
naquele mesmo dia. Eu pensei em muitas coisas, inclusive em dizer assim “venha
cá, Gabriel, quer ser meu filho? eu cuido de você”, felizmente, antes de me
precipitar, o problema de documentação foi resolvido e ele pode ir ao terminal
pedir o cartão de transporte escolar.
Meu filho, sabe quantos meninos
iguais a Gabriel eu conheci por minhas andanças profissionais? Vários. Todos eles
me lembram o meu irmão Josué. A diferença entre eles são as condições reais de
vida e as possibilidades de realizarem seus sonhos. Quando eu ainda pensava que
você poderia ser menina, eu tinha muitas respostas sobre os problemas que as
mulheres negras enfrentam todos os dias, eu sabia o que te falar sobre
liberdade e independência, sobre ser forte e sensível, sobre se achar bonita,
sobre ter raízes e asas.
Agora que eu sei que você é menino,
eu tenho tantas perguntas e medos. Todas as preocupações que tenho em relação
ao meu irmão, eu tenho em relação a você também. Eu fico pensando quando você
for um adolescente grande, bobo e cheio de sonhos, e acharem que você é um
adulto, como eu vou te proteger? Antes que eu comece a pensar que eu desejo que
você seja invisível aos olhos da polícia, como eu sempre peço em minhas orações
para o meu irmão, você me dá uns choquinhos, como para me trazer ao presente.
No presente, você ainda está em
minha barriga com 20 semanas de vida, ou seja, 5 meses. Eu e o seu pai ainda
não decidimos o seu nome e cada semana aparece um nome bonito e forte, como você.
Estamos arrumando o seu quartinho, já selecionamos a maioria dos móveis que
precisam ser comprados. Na última semana compramos o carrinho pra te levar pra
passear no calçadão. Seus avôs, tios e primos estão ansiosos por sua chegada. Nós
dois temos ainda 4 meses grudadinhos. Pensar nisso me conforta demais, porque
aqui dentro de mim você está totalmente seguro. Eu ainda tenho esse tempo, meu
pequeno, para encontrar algumas respostas sobre liberdade e independência,
sobre ser forte e sensível, sobre se achar bonito, sobre ter raízes e asas.
Bárbara Maia Cerqueira Cazé
Bárbara Maia Cerqueira Cazé
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