Minha experiência na Nissan

Hoje* eu aproveitei o dia útil e livre para escolher um carro. Agora eu quero ter carro, quero dirigir pra lá e pra cá e não quero depender de táxi pra me buscar nas compras do mês. Quem me conhece sabe que eu nunca quis ter carro. Agora eu quero.
Saí de casa no meio da tarde, de uber, em direção à concessionária da Nissan (única na cidade de Vitória que fica na Avenida Fernando Ferrari, em Goiabeiras). Tenho adiado a visita à concessionária porque eu preferia ir acompanhada. Eu nunca tive carro, não tenho familiaridade com o assunto, sendo mulher, enfim. O tratamento não me surpreendeu, infelizmente foi tudo como ordena o machismo e o racismo de cada dia.
Cheguei à concessionária e os vendedores estavam posicionados cada qual em sua mesa. Eu me aproximei da primeira mesa: “Boa tarde! Vendas é com você?”. O vendedor estava comendo uma banana e respondeu “Sim. Só um momento.”. Eu sentei na cadeira próxima a mesa e aguardei o vendedor retornar. Meu atendimento não durou 10 minutos.
- Você tem algo em mente?
- Estou interessada num March.
- Custa R$ 46.519,00.
- ...
- Como você pretende pagar?
- Eu tenho uma carta de crédito, de consórcio.
- Qual o valor?
- 45 mil reais.
- Eu posso fazer por 45 mil o modelo 1.0 S que já vem com ar condicionado e vidros elétricos. Você conhece o carro?
- Sim. Mas eu quero ver esse modelo.
O vendedor me acompanhou até o carro e abriu a porta. “O carro de 45 mil é parecido com esse aqui”, disse o vendedor e abriu a porta do motorista. Eu sentei no banco do motorista, segurei o volante, olhei para o retrovisor, para câmbio e para o banco de trás. O vendedor me chamou “Tá bom, né? Vamos!”. Nessa hora eu entendi que o vendedor estava de má vontade, porque, na verdade, quem acredita que uma mulher e negra vestida de jeans e camiseta tem uma carta de crédito de 45 mil pra comprar um carro?
No caminho para retornar à mesa o vendedor pegou um folheto propaganda do March. Quando chegamos à mesa, o vendedor bateu um carimbo no folheto e me entregou. Foi tudo feito com tanta "boa vontade" que o carimbo apagou e agora eu não sei o nome desse infeliz. Como pra mim o atendimento ainda não tinha acabado, continuei sentada e perguntei sobre o preço das revisões e do seguro. O vendedor respondeu o preço das revisões e do seguro secamente. Como pra mim ainda não tinha acabado o atendimento, eu continuei sentada e queria saber a opinião de um motorista regular sobre o carro. Eu perguntei “Você tem carro? Qual o seu carro?”. “Meu carro é um Sentra, custa 120 mil, não é pra você não. Pra você que está começando um March é bom ou um semi-novo. Quem atende semi-novo é esse vendedor aqui [apontando a mesa ao lado]. A senhora pode aguardar ele acabar o atendimento ali na recepção.”, respondeu o vendedor. Eu respirei fundo, sorri e respondi “Nem quando eu tiver com dinheiro sobrando eu vou comprar um carro de 120 mil reais.”. E eu realmente não compraria. Respirei fundo novamente, levantei, bebi um copo de água e fui aguardar na recepção.
Olhei no relógio eram 15:21 h, calculei que se ninguém me atendesse em dez minutos eu sairia da loja. Uma vendedora passou, eu vi que ela estava atendendo outras mulheres, mesmo assim eu a abordei e pedi que ela me atendesse. Depois disso, dois minutos depois o primeiro vendedor veio me comunicar “O vendedor do semi-novo já está concluindo e vai te atender”. O vendedor de semi-novo também veio falar comigo “Eu já estou concluindo aqui e vou te atender”. Deduzi que alguém tinha levado esporro.
Às 15:26 o vendedor do semi-novo veio me chamar. Perguntou o meu nome, apertou a minha mão, se apresentou “Meu nome é Anderson”, perguntou o que queria. Respondi prontamente “Eu quero um March novo.”. Ele sorriu amarelo (porque ele acompanhou o atendimento aligeirado do colega), disse que tinha várias opções de semi-novos, que tinha um Ford Ka com a quilometragem baixa. Eu nem sabia que na Nissan vendiam carro da Ford. Mas Anderson me explicou como funcionava a troca de carro, que há estoque considerável de carros de todas as marcas, falou de opções de semi-novos da nissan, falou de um March 1.6 SV com 15 mil quilometros rodados com banco de couro por 44 mil. Anderson me explicou a diferença entre o carro que ele estava oferecendo e o que o colega ofereceu, falou das vantagens e falou e falou. Quase eu comprava o carro de 44 mil! Antes que eu aceitasse, porém, uma vendedora chegou e perguntou a Anderson se ele tinha me oferecido o March novo que ela tinha falado no whatsapp. Ele disse não “Porque não vi ainda”, então a senhora sentou e falou “Estou com 3 carros March 1.0 S na cor vermelha com som e emplacamento por 40 mil.”. Eu não sei de qual buraco esse carro saiu... Nós três conversamos sobre o carro. Os dois falaram as vantagens, dos cinco mil que eu economizaria, que em dez dias eu estaria passeando na cidade de carro, das revisões, do seguro, fizeram o cálculo de quanto eu gastaria de combustível com base no meu trajeto diário. Fiquei sentada com Anderson por mais de 25 minutos. Quase eu comprava o carro de 40 mil. Eu realmente quase comprava o carro de 40 mil. Eu agradeci a Anderson pelo atendimento, expliquei que eu já tinha planejado olhar outras opções, mas que voltaria após avaliação.
Eu entendo quando um homem branco diz “esse carro não é pra você” ou “pra você um semi-novo serve”, ele está sendo machista e racista. Sendo mulher e negra há carros que “não são pra mim”? Ora, o carro bom pra mim é o que eu quero e o que eu posso pagar. Mesmo com a carta de crédito em mãos o vendedor branco se acha no direito de me dizer “esse carro não é pra você”. Eu sei que o March é o carro mais barato da Nissan, eu li na internet, eu pesquisei antes de ir à loja. Só acho que se não compensa vender esse tipo de carro então é melhor tirar da vitrine. Se está à venda é porque dá lucro pra empresa e comissão para o vendedor.
Sabe? Eu estava decidida a comprar um March, hoje eu saí de casa para comprar meu carro novo, mas o atendimento foi tão ruim que fiquei desinteressada e não vou mais comprar esse carro.

*14/11/2016 foi uma segunda-feira. As repartições públicas estaduais tiveram ponto facultativo. Em Vitória choveu o dia inteiro.

Sabe por que?

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