Acompanhei
a votação pelo prosseguimento do impeachment com amigos no centro de Vitória,
local de resistência política. Estava bonito. Fiquei com fome e fui comer um
lanche num trailer que está sempre estacionado na Praça Ubaldo Ramalhete Maia.
Pedi um hambúrguer, paguei R$ 6,50. Enquanto aguardava meu pedido, sentei e
observei o funcionamento da lanchonete. Dentro do trailer havia dois
adolescentes: um branco servindo as bebidas e um negro trabalhava na chapa
montando os sanduíches. Meninos bonitos, espinha na cara, cabelinhos da moda e
uniforme. Meninos habilidosos, não paravam um minuto sequer. Reparei que o
negro tinha uma deficiência no braço – com braço menor ele segurava o pão e com
o outro braço colocava o recheio. Ele mal concluía um sanduíche e já tinha
iniciado o preparo do outro, se dividindo entre a chapa e o espaço para
montagem.
Em
quase dez anos como profissional da educação pública vi muitos meninos pretos e
pobres, olhei nos olhos deles, os ouvi falando sobre seus sonhos, sobre as suas
dificuldades. Já vi muitos corpos pretos e pobres sendo marcados pela dor, pelo
medo, pela incerteza... Já perdi muitos deles por tiro da polícia, por tiro de
milícia, por tiro de bandido... Já perdi muitos deles pro mercado de trabalho
precarizado, pra gravidez inesperada, pra violência dentro de casa... Já vi e
ouvi tantas coisas que eu imagina que não suportaria. No entanto, quando eu
fecho e rememoro meus encontros com os meninos pretos e pobres que passaram na
minha profissional, a lembrança mais preciosa são os sonhos de cada um deles.
Eu vejo no olhar deles os sonhos que eu tive quando adolescente, eu vejo os
sonhos que eu compartilhava com os meus amigos. E eu entendo o porquê eu
continuo trabalhando com educação pública.
As
imagens desses sonhos passaram em minha cabeça enquanto eu observava o rapaz
com o braço pequeno montando sanduíches. Eu me lembrei de Pedro, um adolescente
da EJA, que chegava sempre atrasado e sempre com um potinho de açaí. “Você gosta de açaí, hein? Eu gosto. Vende lá
em minha sorveteria. Vou trazer pra você.” Pedro tinha uma sorveteria em
sociedade com o irmão que funcionava na parte de frente da casa. Durante o dia,
a sorveteria ficava sob a responsabilidade de Pedro e no período da noite sob a
responsabilidade do irmão, que tinha emprego fixo em horário comercial. Pedro
só podia sair da sorveteria para ir estudar quando o irmão chegasse para
rendê-lo.
Quando
alguém vem falar comigo baboseiras sobre o programa bolsa família ou como a
juventude não quer nada, eu me lembro de Pedro, que aqui representa todos esses
meninos pretos e pobres que compartilharam seus sonhos comigo. A juventude está
lutando com raça para garantir o do dia, inventando formas de vidas outras nos
cotidianos que nos escapam. A juventude continua sonhando. E eu, por intermédio
de meu trabalho, tenho a felicidade de conhecer alguns desses sonhos e viver
junto com eles a invenção da vida.
Pelos
sonhos dos meninos pretos e pobres;
Pela
invenção de vidas nos cotidianos;
Por
uma cidade aonde Pedros tenham oportunidades;
Pela
resistência ancestral que mantém nossas cabeças erguidas;
Pela
coragem acordar e lutar.
Alguns
dias são mais difíceis de acordar. Mas estamos de pé. Ao olhar no espelho eu
vejo em meu corpo as marcas desses muitos sonhos e dores compartilhados. Eu
sinto a coragem e a resistência que nunca fizeram os corpos negros desistirem.
Sigamos! Seguiremos.
Bárbara Maia Cerqueira Cazé
Bárbara Maia Cerqueira Cazé
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