eu queria que xs amigxs me ajudassem a entender a curiosidade das pessoas brancas em relação aos hábitos de higiene das pessoas negras. porque pra mim só o racismo explica.

quando eu sou abordada a primeira vez no dia por alguém que me pergunta de maneira respeitosa como eu lavo o meu cabelo, em geral tento ser didática. eu pergunto respeitosamente: como você lava o seu? x interlocutorx fica sempre surpreso e levemente constrangido. eu aguardo a resposta. só depois de ouvir a resposta completa, eu digo “faço igualzinho a você, molho com água no chuveiro, passo shampoo e tals”. eu consigo ser didática com a primeira pessoa, na segunda, terceira, quarta, quinta, aí… quem me pergunta à noite eu nem respondo mais e me faço de desentendida. certa vez eu estava de saco cheio mas disposta a causar, então eu perguntei primeiro como a pessoa lavava o cabelo dela, como escovava os dentes, como tomava banho - foi nonsense, no mínimo.

hoje eu estava de costas e alguém agarrou uma mecha do meu cabelo e comentou em alto e bom som “eu só quero saber como ela faz pra lavar!”. veja: a pessoa estava me vendo pela primeira vez, tem a ousadia de me tocar sem a minha autorização (agarrou uma mecha dos meus cabelos) e ainda de questionar os meus hábitos de higiene. eu achei tudo tão absurdo que num movimento pausado peguei meus cabelos de volta e continuei de costas. o constrangimento foi geral, é isso, eu não posso ficar me sentindo constrangida sozinha, agora eu compartilho com quem de direito.

essa situação me lembrou um caso contado por Muniz Sodré, no livro “Claros e Escuros”, sobre uma jornalista negra na Iugoslávia. ao encontrar com a negra, a européia pede para tocá-la, chama também os filhos para tocar naquela pele escura que desperta curiosidade, no entanto, quando a jornalista faz sinal para tocar nas crianças a européia recua. e continua o autor: “O nojo racista do Outro decorre de seu deslocamento territorial: ele (o negro, o índio, etc) está ali onde não deveria estar (...) No caso da jornalista negra na Iugoslávia: ela podia ser tocada (gesto de ousada curiosidade da mente investigadora da européia sobre o Outro feito objeto inerte), mas não tocar (lugar de sujeito ativo).” p. 261

Bárbara Maia Cerqueira Cazé

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