Sabe por que?

Sabe por que mulher não confia em homem? Porque homem é aquele PAI que...
... abandonou a sua mãe quando soube da gravidez e a filha por tabela.
... paga pensão só porque obrigado pela justiça.
... nunca aparece para um abraço de amparo.
... nos finais de semana em que é obrigado a levá-la, a deixa com avó e segue a sua programação de homem solteiro.
... para de pagar pensão quando a filha completa 18 anos, independente da situação em que se encontra a filha.

Sabe por que mulher não confia em homem? Porque homem é aquele CARINHA que...
... diz gostar de você, mas some no dia seguinte.
... te chama pra sair e te leva a lugares aonde com certeza não encontrará conhecidos.
... está muito interessado e liga pra dizer “tô passando aí!” depois da meia noite.
... na vida privada te elogia e na vida pública finge não te conhecer.
... diz que não está pronto para relacionamento mas aparece namorando seis meses depois.
... se recusa a usar camisinha.
... propõe aborto como única opção em caso de gravidez sem planejamento.
... te chama de louca quando você reclama pela falta de carinho.
... compartilha com os amigos a vida intima de vocês sem o seu consentimento.

Sabe por que mulher não confia em homem? Porque homem é aquele COLEGA DE TRABALHO que...
... faz atividades junto com você e apresenta ao chefe sem mencionar o seu nome.
... diz que você é boa no que faz e indica outro colega para oportunidade melhor.
... te faz motivo de piada na hora do lanche.
... tenta te fazer secretária.

Hospital é um lugar de tragédias

Quinta-feira. A recepção do hospital está movimentada. Respiro fundo e sigo para quarto do enfermo. Cruzo com um padre no corredor. Uma senhora ficou viúva; o seu esposo, segundo fico sabendo, foi atropelado por um ônibus enquanto pedalava e não resistiu a cirurgia na perna. Vou acompanhando Wladimir para o centro cirúrgico desviando o pensamento da notícia recente.

Hospital é um lugar de reconciliações

Sexta-feira. Sei que Wladimir dormiu bem. Enquanto aguardo na recepção o momento de entrar, uma senhora loira se aproxima e pergunta de onde eu sou, porque estou ali, quem é o bebê. Explico e pergunto. A loira é mãe do irmão mais novo do jovem que está nas últimas. Aquele que foi atropelado pelo ônibus enquanto pedalava tem, na verdade, 20 anos; a mulher inconsolável de ontem é a sua mãe. A loira me pede para identificar a mãe do acidentado, eu lembro o olhar desesperado da ex-quase-viúva, identifico e lhe aponto. Ela receia a sua reação. Apesar da dúvida em relação ao acolhimento da mãe do acidentado (por ser ex do ex), ela vai cumprimentá-la. Testemunho o abraço, o choro, a conversa.

Hospital é um lugar de revelações

Depois do interrogatório, percebi que a curiosidade da senhora loira justifica-se: descobriram que o rapaz de 20 anos que foi atropelado enquanto estava pedalando e está nas últimas tem um filho de 8 meses; o bebê e mãe estão a caminho do hospital e chegarão a qualquer momento.

Hospital é um lugar de expectativas

O jovem de 20 anos que foi atropelado enquanto pedalava e ontem estava nas últimas (por isso toda família foi chamada) está reagindo bem ao tratamento. Até o momento o bebê de oito meses e a sua mãe não chegaram.
Puerpério. O dia estava ensolarado e pude fazer o passeio da manhã com Joaquim. Fomos à pracinha e ao supermercado. Na pracinha fiz uma amiga (que também está no puerpério): conversamos sobre amamentação, vacinas, efeitos nos bebês e tempo de sono dos bebês. No supermercado a caixa disse que sempre que eu vou lá Joaquim está dormindo no sling. Joaquim dormiu na hora do almoço e eu pude almoçar sentada à mesa uma comida bem sincera preparada por Geisa com direito a repeteco, limonada com couve, sobremesa e a companhia de Wladimir. Um luxo. A tarde fui ao salão. Joaquim ficou no colo de Geisa - ela ninando ele, ele dormindo e eliminando gases. Quando ele veio para o meu colo mamar, senti o cheiro dela nele. Senti ciúmes pela primeira vez, mesmo assim agradeci por ela ter um colo tão macio. No início da noite Joaquim dormiu e eu o coloquei deitado no sofá. Consegui ligar o notebook, enviar um e-mail e ele acordou (tem outro e-mail que precisa ser enviado atrasado há dias). Agora eu estou aqui com Joaquim deitado em meu colo em seu soninho de passarinho escrevendo pelo celular esse texto enquanto penso que até a chegada de Wladimir da universidade eu terei muito tempo de colocar pra dormir/ acordar chorando/ acalmar/ dar de mamar/ colocar pra dormir/ tentar fazer algo nesse intervalo. Tentar fazer algo durante os momentos de sono do bebê é uma tortura. Ou isso está no pacote do puerpério.

Maternidade 6

Bárbara, grávida de Joaquim (33 semanas/ 8 meses)

Trinta e três semanas. Trin-ta-e-três-se-ma-nas! Oi-to-me-ses!

Quando uma mulher grávida me dizia que estava com oito meses eu preferia nem ficar perto porque eu imaginava que o bebê poderia querer nascer ali perto de mim, no momento daquele encontro, alguns minutinhos de dor e choro de bebê (perceberam a minha vasta experiência de acompanhar partos de novelas). Agora eu sinto quase a mesma coisa quando olho no espelho. É assim: eu olho pra minha barriga no espelho e Joaquim se mexe. Meu primeiro pensamento é: é agora. Mas não é. Minha avó já me disse que enquanto ele se mexer não é a hora. Nos dias próximos ao parto ele ficará quietinho. Alívio parcial.

Desde o mês passado passei a sentir as contrações de Braxton Hicks (são contrações de preparação do corpo, sem dor, a barriga fica dura por um tempinho e logo passa). Na primeira vez me apavorei, fui ao médico, fiquei de repouso. Agora eu sinto, respiro e agradeço por essa preparação que será fundamental para a hora do parto.

Na última ultrassonografia vi que Joaquim continua com lábios carnudos, como os meus, e o médico nos mostrou que ele já nascerá cabeludinho. Ele está cada vez mais parecido com aquela criança que eu sonhei em 2013! Não vejo a hora de pegar o meu pequeno no colo e dizer “Seja bem vindo, meu filho, sou eu que vou te acompanhar nessa passagem pelo planeta Terra!”.

Chegando à reta final da gestação, eu olho para trás e sinto que foi um período muito feliz no qual eu estive sempre cercada de gentilezas. Eu ouvi algumas barbaridades, é verdade, mas eu entendo partiam de um lugar onde gravidez/ter um filho é sinônimo de dor. Então me pus a pensar que é preciso ouvir além do texto, o que significou compreender que aquelas palavras duras revelavam preocupação.  Pensando dessa maneira, eu criei uma lista curta sobre o que NÃO dizer para uma mulher grávida:

- NÃO contar casos sobre abortos espontâneos de outras mulheres;

- NÃO contar casos traumáticos de pós-abortos espontâneos de outras mulheres;

- NÃO contar casos de mulheres grávidas que descobriram câncer ou outras doenças graves durante a gestação, não importa se os bebês sobreviveram ou não;

- NÃO dizer que o seu bebê está pequeno demais ou grande demais. Essa mulher está sendo acompanhando por umx médicx;

- NÃO dizer que ela anda cansada demais e por isso deve estar com problemas na tireoide, pâncreas, apêndice, fígado, intestino grosso, etc. Essa mulher está sendo acompanhando por umx médicx;

Por fim e não menos importante:
- NÃO dizer que o que a mulher grávida diz sentir é frescura; e se for frescura, qual o problema?

Minha lista é curta porque só inclui nela casos que me chocaram, as demais aporrinhações que dizem as gravidas eu deixo passar e respondo mentalmente. Por exemplo, quando alguém diz “não compre roupas de recém-nascido porque o seu bebê cresce muito rápido, você vai ver, só dura duas semanas”; aí eu respondo mentalmente “e nessas duas semanas eu enrolo o meu filho num lençol?”. É um saco, mas não me choca.

Falando em enxoval, não bastasse a breguice de azul para meninos e rosa para meninas (itens como o ofurô/balde de banho não há no mercado outras opções de cores), há uma infinidade de tons de azul com denominações tão esdrúxulas que eu não tive coragem de comprar. São tons azul marinho premium, monarchy (grafado assim) marinhorealeza marinhonobreza marinhoclassic azul... deve ser trauma de país colonizado.

Mas a marca de ter sido um país colonizado e ter vivido a custa do trabalhado de africanos negros escravizados está mesmo naquela cama de solteiro que fica no quartinho do bebê. Cama auxiliar ou cama para acompanhante me pareciam um nome adequado, só que não. Nas lojas e sites essas camas são chamadas “cama babá auxiliar”. O troféu breguice do enxoval do neném vai para cama da babá.

Está chegando ao fim, falta pouco e sobra ansiedade, o que faz com cada semana seja surpreendente.

Feliz dia dos namorados

"Somos mulheres que lutam, mulheres guerreiras, mulheres que nos trouxeram até aqui, mas a um custo incomensurável. Há tanto a coragem e força com que fomos revestidas, mas também de opressão que existe nisso. Eu costumo falar para as jovens negras, quando tenho oportunidade: nós temos que lutar pelo direito à fragilidade. Está na hora de as mulheres negras reivindicarem isso. Eu falo para minha filha: esse negócio de mulher negra pronta para a guerra, que aguenta tudo, acaba aqui (gesticula, batendo no peito). Aqui. Chega. Estamos trabalhando para que vocês reivindiquem outro tipo de coisa, de terem inclusive o direito à fragilidade e ao cuidado." Sueli Carneiro em entrevista à Revista Cult (Maio de 2017)

A primeira vez que ouvi falar em direito ao cuidado foi no consultório de uma psicoterapeuta. Eu estava no fim da adolescência, uns vinte anos talvez, cursando a universidade, trabalhando, com aspirações afetivas que pareciam ousadas demais: eu sonhava em encontrar um parceiro disposto a caminhar comigo, ao contrário do que eu via ao meu redor (muitas mulheres negras, solteiras e chefes de família, dessas guerreiras prontas para tudo) e o que diziam as estatísticas.

Eu tive alguns namorados e os términos foram muito parecidos. Basicamente eu era ou exigente ou mimada demais. Por um tempo eu tentei ser menos exigente e as experiências foram ainda mais desastrosas, porque quanto mais concessões da minha parte, menos cuidado eu recebia. Algumas vezes esses mesmos rapazes que me negavam carinho, ao iniciar novo relacionamento faziam questão de torná-los públicos com direito a declarações apaixonadas, provando que eles eram capazes de dar carinho sim, não o fizeram por falta de vontade.

Até que eu desisti desse lance de amor e me dediquei a estudar e trabalhar, o que me fez muito bem. Em paralelo, a terapia sempre me ajudou no fortalecimento da minha autoestima, no reconhecimento de minhas qualidades e da minha história como mulher negra.

As questões que envolvem a solidão da mulher negra são hoje debatidas abertamente, há vários textos na internet, seminários na universidade, produção acadêmica, grupo de militância feminista e hoje entendemos que 'falta de vontade' é eufemismo. Os homens negam às mulheres negras carinho e cuidado porque eles acreditam (com suas mentes colonizadas) que não merecemos tanto, o mesmo não acontece quando se relacionam com mulheres brancas.

A solidão da mulher negra não se restringe a ter um parceiro ou não, está também na qualidade do carinho e do cuidado dedicado a essa mulher, na admiração pelas conquistas dessa mulher e, por fim, e não menos importante, todos esses aspectos não se restringem a esfera privada, mas na coragem em assumir o relacionamento com esse mulher para a família e amigos. A solidão da mulher negra também não se restringe aos aspectos afetivos sexuais mas no cuidado da sociedade como um todo tem com essa mulher. 

Conceição Evaristo em seu livro de contos, Olhos d'água, apresenta um caleidoscópio de mulheres negras e situações a que somos submetidas diariamente. Um conto me tocou de maneira especial chama-se Maria. Maria aguarda o ônibus para voltar para casa após um dia de trabalho, 'estava feliz, apesar do cansaço'. O ônibus chega, Maria entra, um homem paga a sua passagem. Maria senta e reconhece o homem: é o pai de um dos seus três filhos. Maria se perde em lembranças desse homem que ela amou. Maria se sente culpada por ter tido outros filhos de outros homens. Maria se sente culpada por ter sido abandonada. Em nenhum momento o homem olha nos olhos de Maria. O homem manda 'um abraço, um beijo, um carinho no filho'. O homem se levanta e anuncia o assalto. Todos são saqueados, menos Maria, que carrega em sua sacola restos da refeição da festa na casa da patroa para os filhos. Acusam Maria de ser cúmplice no assalto. Apontam-lhe o dedo 'aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões!'. Maria precisa chegar em casa para transmitir ao filho o recado enviado pelo pai mas o seu corpo dilacerado e pisoteado não permite.

Maria traduz a solidão da mulher negra. Quando uma mulher negra se olha no espelho enxerga Maria em suas memórias afetivas. Mas não somos só Maria. Hoje sabemos que temos direito à fragilidade e ao cuidado. Não vamos abrir mão disso.

Sabe por que?

Sabe por que mulher não confia em homem? Porque homem é aquele PAI que... ... abandonou a sua mãe quando soube da gravidez e a filha por ...