"Somos mulheres que lutam, mulheres guerreiras, mulheres que nos trouxeram até aqui, mas a um custo incomensurável. Há tanto a coragem e força com que fomos revestidas, mas também de opressão que existe nisso. Eu costumo falar para as jovens negras, quando tenho oportunidade: nós temos que lutar pelo direito à fragilidade. Está na hora de as mulheres negras reivindicarem isso. Eu falo para minha filha: esse negócio de mulher negra pronta para a guerra, que aguenta tudo, acaba aqui (gesticula, batendo no peito). Aqui. Chega. Estamos trabalhando para que vocês reivindiquem outro tipo de coisa, de terem inclusive o direito à fragilidade e ao cuidado." Sueli Carneiro em entrevista à Revista Cult (Maio de 2017)
A primeira vez que ouvi falar em direito ao cuidado foi no consultório de uma psicoterapeuta. Eu estava no fim da adolescência, uns vinte anos talvez, cursando a universidade, trabalhando, com aspirações afetivas que pareciam ousadas demais: eu sonhava em encontrar um parceiro disposto a caminhar comigo, ao contrário do que eu via ao meu redor (muitas mulheres negras, solteiras e chefes de família, dessas guerreiras prontas para tudo) e o que diziam as estatísticas.
Eu tive alguns namorados e os términos foram muito parecidos. Basicamente eu era ou exigente ou mimada demais. Por um tempo eu tentei ser menos exigente e as experiências foram ainda mais desastrosas, porque quanto mais concessões da minha parte, menos cuidado eu recebia. Algumas vezes esses mesmos rapazes que me negavam carinho, ao iniciar novo relacionamento faziam questão de torná-los públicos com direito a declarações apaixonadas, provando que eles eram capazes de dar carinho sim, não o fizeram por falta de vontade.
Até que eu desisti desse lance de amor e me dediquei a estudar e trabalhar, o que me fez muito bem. Em paralelo, a terapia sempre me ajudou no fortalecimento da minha autoestima, no reconhecimento de minhas qualidades e da minha história como mulher negra.
As questões que envolvem a solidão da mulher negra são hoje debatidas abertamente, há vários textos na internet, seminários na universidade, produção acadêmica, grupo de militância feminista e hoje entendemos que 'falta de vontade' é eufemismo. Os homens negam às mulheres negras carinho e cuidado porque eles acreditam (com suas mentes colonizadas) que não merecemos tanto, o mesmo não acontece quando se relacionam com mulheres brancas.
A solidão da mulher negra não se restringe a ter um parceiro ou não, está também na qualidade do carinho e do cuidado dedicado a essa mulher, na admiração pelas conquistas dessa mulher e, por fim, e não menos importante, todos esses aspectos não se restringem a esfera privada, mas na coragem em assumir o relacionamento com esse mulher para a família e amigos. A solidão da mulher negra também não se restringe aos aspectos afetivos sexuais mas no cuidado da sociedade como um todo tem com essa mulher.
Conceição Evaristo em seu livro de contos, Olhos d'água, apresenta um caleidoscópio de mulheres negras e situações a que somos submetidas diariamente. Um conto me tocou de maneira especial chama-se Maria. Maria aguarda o ônibus para voltar para casa após um dia de trabalho, 'estava feliz, apesar do cansaço'. O ônibus chega, Maria entra, um homem paga a sua passagem. Maria senta e reconhece o homem: é o pai de um dos seus três filhos. Maria se perde em lembranças desse homem que ela amou. Maria se sente culpada por ter tido outros filhos de outros homens. Maria se sente culpada por ter sido abandonada. Em nenhum momento o homem olha nos olhos de Maria. O homem manda 'um abraço, um beijo, um carinho no filho'. O homem se levanta e anuncia o assalto. Todos são saqueados, menos Maria, que carrega em sua sacola restos da refeição da festa na casa da patroa para os filhos. Acusam Maria de ser cúmplice no assalto. Apontam-lhe o dedo 'aquela puta, aquela negra safada estava com os ladrões!'. Maria precisa chegar em casa para transmitir ao filho o recado enviado pelo pai mas o seu corpo dilacerado e pisoteado não permite.
Maria traduz a solidão da mulher negra. Quando uma mulher negra se olha no espelho enxerga Maria em suas memórias afetivas. Mas não somos só Maria. Hoje sabemos que temos direito à fragilidade e ao cuidado. Não vamos abrir mão disso.
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